domingo, 25 de setembro de 2011

Metallica - a banda mais metrossexual da cidade

Houve época em que o Metallica influenciava a molecada querendo ser thrasher. Desde o Load e Reload, a molecada influencia o Metallica.

Às vezes o modus operandi da banda ex-boa é dar uma roupagem mais soft que papel higiênico dupla-face a um som que era do capeta; às vezes é colocar umas letrinhas ou pseudo-festeiras como Ain't My Bitch (porra, os caras tinham letras baseadas em Hemingway e Lovecraft!), ou "mamãe, caguei" tipo Mama Said e Bleeding Me (precursoras do movimento emo - compare com Welcome Home e The Frayed Ends of Sanity). Isso sem falar nos cortes de cabelo copiados do Red Hot Chili Perppers (como diferenciar Jason Newsted de Dave Navarro quando ele apareceu de cabelo curto? Pelo esmalte nas unhas).

E vale o ditado "diga-me com quem andas que te direi quem és". Pros caras que faziam turnê com Destruction, Sodom, Exploited e Anthrax, agora tão andando com Limp Bizkit e Kid Rock - e, pior, sendo influenciados por essa patuléia!!

O Metallica foi ótimo até o monumento tombado pela Unesco chamado Master of Puppets, mereceu o Nobel do Som Porrada com o melhor álbum de todos os tempos, o ...And Justice For All, que tem um clima de luto por Cliff Burton em cada nota (parece que nenhum riff se repete perfeitamente no álbum inteiro). O Black Album tem mais produção que composição, apesar de músicas indiscutivlemente padrão do caralho de qualidade, como The Unforgiven, Sad But True e até Enter Sandman, que infelizmente já deu nos bagos (para os que insistem em acreditar na superioridade do Black Album, fora essas 3 músicas e a introdução de Whereaver i My Roam, que outra música vocês ouviram desse álbum nos últimos 20 anos?).

Já o Load e o Reload apareceram repentinamente. A banda fez uma longa turnê pelo Black Album que durou uns 3 anos (só superada em duração para a do God Hates Us All, do Slayer, que abria todo festival europeu com as mesmas músicas de divulgação, 1 Copa do Mundo depois de já terem feito o mesmo e outras bandas terem lançado 3, 4 álbuns). Viraram uma banda tão grande que foram fazer feitos inéditos para a época, como tocar na recém reinaugurada Rússia, que acabara de largar o nome "União Soviética". Se você quer uma prova histórica do que escrevi sobre os grandes festivais como Rock in Rio nas décadas de 80/90, metallica moscow.jpgbasta comparar o Live in Moscow'91 da turnê do Black Album com um algum show recente, de 2 anos. Compare James Hetfield se calando no refrão de TODA música famosa para ouvir a galera e tendo um silêncio como resposta, até pedindo para a galera gritar ("C'mon, men, it's 'WHIPLASH!!', godamn!") sem ser compreendido, com algum show de 2 anos atrás, na era do mp3 e do fim do Estado descendo a porrada na platéia (sério, dá pra ver isso o tempo todo), em que só o anúncio de uma música já faz com que a platéia grite loucamente.

Mas depois dessa turnê a banda sumiu. Todo mundo achou que os caras tinham morrido de overdose, se aposentado pra virarem jogadores de bocha e caminhoneiros transportadores de abacaxi, perguntavam-se se tinham pegado Alzheimer ou se tinham virado gays. Resposta correta: tinham virado gays.

De repente aparece um quarteto de senhores de meia idade, cabelos curtos (o que deixou Lars Ulrich mais bochechudo do que um buldogue passado no aspirador de pó), fotos escovadíssimas, roupas sóbrias e simplórias e expressão de que têm musiquinhas legais pra se ouvir numa festinha. Preferencialmente se for aquele momento mais democrático das festinhas escolares, em que param de tocar Bon Jovi pras meninas irem ao banheiro e os rapazes ouvirem alguma coisa que presta por 2 músicas. E era exatamente isso: as músicas do Metallica agora eram músicas para intervalos de festinha. Para não cogitar a homoerótica hipótese de que quatro galalaus marcaram horário no cabeleireiro juntinhos, fiquemos com a hipótese menos entubadora de mangalhos de que 2 membros da banda se casaram e suas sogras lhes exigiram cortar aquelas cabelos de rockeiros pauleira, e os outros dois passaram a usar calças sociais pretas com camisas com abotoaduras pra procurar emprego.

Pra quem não viveu aqueles idos de 96 (sério, como vocês conseguem achar que Metallica é uma das melhores bandas do mundo se os conheceram no Reload?!), vou explicar como foi: avisaram que tinham voltado pras rádios, deram uma entrevista ou outra, mostraram as fotos tosados numas revistas aí. E fizeram um suspense do caralho a respeito do álbum. E a música, caralho, como seria? Estaríamos diante de riffs cavalares a la Eye of the Beholder ou For Whom The Bell Tolls? Bom, confesso que foi menos pior do que parecia. A primeira música apresentada foi Until Sleeps. Lançamento mundial. Música esquisita, mas obscura. O Metallica tinha mudado muito do ...And Justice pro Black Album, em 3 anos. Poderia mudar muito mais em 5. Ainda tinha uma cara de Metallica.

O problema do Load não é "ser comercial". O problema é que tem letras mela-cueca, mesmo quando tenta ser "machão" - pruma banda que gravara To Live is to Die, One e ...And Justice For All há menos de uma década, começar um álbum com uma música chamada "Ain't my Bitch" era prova de o álbum ser sobra de estúdio. aliado a isso, o problema principal é que o álbum não tem riffs. E isso não é um problema se você é o Al di Meola ou o Steve Vai. Mas não quando você é a porra do Metallica!

O heavy/thrash/death metal na década de 2000 foi extremamente voltado para ritmos distorcidos, músicas extremamente sincopadas, cavalgadas tão fora do padrão "pergunta-resposta", com pausas tão difíceis de decorar, porque bandas como Meshuggah, Nevermore, Evergrey, Children of Bodom, Arch Enemy et tutti quanti beberam de uma fonte única: um álbum chamado ...And Justice For All. O que ele tem de tão anormal ao thrash metal é isso: ninguém consegue tocar aquela bateria identicamente ao Lars Ulrich porque ele muda pelo menos uma nota a cada vez que repete um riff. Mesmo a guitarra, parece sempre ter uma pausa extra, ou a menos, uma nova diferente, uma modificação de tonificação minimalista que ultrapassa as raias da genialidade. Algo que se perdeu completamente no álbum seguinte, mas se explica. Era outra pegada, menos crua, com produção de big band de hard rock.

Mas porra, eu ouço Creeping Death até numa gaita ou num tocador de midi como o Mario Paint... agora retire o maravilhoso amplificador Dual Racktifier da tal Until Sleeps e o que é que sobra? Uma bandinha de garagem com uma letra sem nexo!

Aí reparamos numa coisa estranha. Tanto Load quanto Reload (não é só no nome que são pedaços da mesma gororoba) têm guitarras também bastante difíceis de decorar. As notas não se repetem, mas também não formam nenhum riff decente (curiosamente, as ÚNICAS músicas boas dos 2 álbuns são exatamente aquelas com riffs fodamente do caralho). Tem mesmo uma pegada meio Hendrix e Lynyrd Skynyrd, como o Lars sempre quis. Mas eles não são o Hendrix ou o Lynyrd Skynyrd. E fica uma merda. E sem riffs. É difícil pra caralho tocar (e mesmo decorar) músicas como Fixxxer (pior nome de música de todos os tempos?) e Outlaw Torn. Mas... é uma merda.

Aí o Metallica entrou numa fase existencialista da qual não saiu até hoje. Todo álbum era "pra buscar as raízes". Veio o Garage Inc., com os covers dos Garage Days que só fãs conheciam, e o álbum não sofreu muitas críticas porque tem coisas ótimas (mesmo o que ficou famoso e tocou até furar, como sua versão para Whiskey in the Jar). Veio o S&M, com a Sinfônica tocando e o Metallica atrapalhando. Aí veio o St. Anger... e qualquer pessoa poderá entender porque odeio show de banda grande.

Porra, por que compram essa bosta?! Pra banda entrar na Billboard no dia de estréia em primeiro lugar e pensar: "olha lá, tá vendendo que nem pãozinho quente, melhor seguir essa linha, os fãs adoram e estamos entupindo o cu de dinheiro!"?! Parem de comprar álbuns que são uma bosta, caralho!! Ou querem ouvir Frantic com o Hetfield cantando "fran-tic-tic-tic-tic-tic-tic-dã!" imitando uma máquina de pinball dando tilt por toda a eternidade?!

(ah, sim: gastaram US$15 mil/dia com um terapeuta lunático para fazer esse álbum, para "controlar a raiva" da banda; incrível ver como são os egos de 3 idiotas - desconte-se o Jason - que só pensam em seus próprios umbigos e em dinheiro. E tem até citaçãozinha perdida do Nietzsche perdida por ali.)

O problema do Metallica está aí, agora. O cara que compra um álbum passa uma mensagem positiva pra banda. Daquele álbum. E o mesmo acontece em shows. Eu esperei por 10 anos pra ver um show do Metallica em que aplaudissem até a alma qualquer coisa do Ride the Lightning e a banda fosse recepcionada por dedos médios levantados em riste para coisas do Reload. Até agora não organizaram um boicote ao Metallica. E isso acabou com a banda.

Pior: o Metallica entrou numa onda mais mela-cueca que faz com que até quando toquem músicas antigas, não tenha um pingo de emoção. De que adianta cantar músicas como One (algo como a melhor música do século XX), tão pesada, densa, angustiante, raivosa e triste ao mesmo tempo, versando a respeito da morte em vida de voltar de uma guerra sem braços e pernas (história verídica), com "Yeah!" "Nah!" e "Uuhhh!" dignos de deixar Bruno & Marrone com inveja? O Metallica não consegue mais um pingo de clima em seus shows. Suas músicas são apenas notas. Não à toa que qualquer música climática, como Fade To Black, Welcome Home (Sanitarium) ou The Unforgiven ficam tão ruins ao vivo que eles nunca mais tocaram.

Assim, quando lançaram esse Death Magnetic, finalmente com o logo antigo, com uma "pegada thrash" e uma turnê "só com músicas antigas", deu pra ter alguma esperança. E o álbum começa muito bem com This Is Was Just Your Life. Obviamente, já começa com síncopes, com sons com cavalgadas furiosas e ritmos truncados. Mas é só isso. Não dá mais para agüentar aquela voz horrível do Hetfield fingindo que tem alguma emoção na vida além de vontade de encher o rabo.

E começam as baladas com versos que terminam alongando a sílaba final - tática completamente Renato Russo de tentar fazer rimas - como The Day That Never Comes. Todo o resto são só notas e notas. Sem feeling, sem nada além de ser obra de caras que já compuseram coisas foda no passado (se o Reload fosse obra da banda do seu vizinho, você o recomendaria continuar na música?). E por que caralhos fazer uma música até boa, mas chamá-la de The Unforgiven III?!?!

Enfim, o Metallica é uma banda com passado. Mas não importa o quanto "volte às raízes", continuará sendo apenas uma banda de quarentões que descobriram tardiamente a pouco recomendável arte do metrossexualismo, com dúvidas existencias nas letras (como "All Nightmare Long") que apenas dizem respeito ás lembranças dolorosas de troca-troca no camarim.


Post Scriptum: Sim, este é meu novo blog para falar de música. Seja tr00 e underground pra caralho e clique ali do lado em "Fazer parte desse site" para acompanhar mais som porrada de quem sabe o que escrever. De nada.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Rock in Rio sempre foi uma merda. Resignem-se.

Não paro de ouvir piadas sobre o Pop in Rio. Aparentemente, a crítica é que o evento se degenou - uma idéia sensacional, com música de primeira, de repente virou palco para Cláudia Leitte, Rihanna, Elton John, Ivete Sangalo e Shakira. Algo como Rock in Rio 2011: 26 anos, drogados e prostituídos. Seria pior do que chamarem o Linkin Park pro Wacken. Ou o Evanescence pro Gods of Metal. Ou o Dio pro Ozzyfest. Ou botar a Cristina Scabbia pra cantar no Megadeth (peraí, isso eles fizeram mesmo!).

Isso se alinha a uma retórica nostálgica, sempre lembrando que nos anos 80 era melhor. Não tinha essa mistura. Era pureza pura da boa. Só os cobras iam. Coisa que prova que você manja pra caralho de música por lembrar que o Queen tocou na Cidade Maravilha.

Não é possível imaginar mentira mais deslavada. Tudo isso é um sentimento quase psicanalítico de retorno ao útero aliado à mentalidade de que "eu sou mais velho e maior, portanto eu determino a brincadeira, mesmo que o brinquedo não seja meu". É uma paunocuzice com quase 3 décadas, que ainda revela uma ignorância histórica e musical de fazer o Bon Scott gorfar de novo no túmulo.

Para cobrir essa miséria histórica, bastaria uma passagem rápida na Wikipedia. Nos "gloriosos" anos 80, teve Ney Matogrosso, Erasmo Carlos e Baby Consuelo abrindo show pra Iron Maiden, Queen e Whitesnake. Teve Lulu Santos antes de Nina Hagen (que posteriormente viraria "a baranga berlinense comida pelo Supla"). Teve Moraes Moreira e Alceu Valença abrindo pra James Taylor e George Benson. Teve Kid Abelha "& Os Abóboras Selvagens" (?!) abrindo para AC/DC, Queen e Scorpions! O mesmo show também teve um tal de Eduardo Dusek, cujo maior sucesso na época era o "Rock da Cachorra". Teve até Elba Ramalho abrindo pro Yes!!

É óbvio que perceberam as cagadas (ou algumas) e melhoraram a democratização da ruindade no Rock in Rio II e III. Mas se Erasmo Carlos saiu do palco sob uma chuva de latas, lobão_rock in rio.jpgquem não se esquece das latadas no Lobão quando entrou no palco no Rock in Rio 2 após o Sepultura, abrindo pra Megadeth e Judas Priest (o capacete até foi útil)? E então da antológica chuva de garrafas no Carlinhos Brown abrindo pro Guns 'n' Roses no Rock in Rio III, depois de tentar discursar pra platéia que eles precisavam aprender a valorizar a cultura nacional (como se Carlinhos Brown fosse um Machado de Assis ou Joaquim Nabuco). Mas isso já mostra que esse evento sempre foi uma desgraça.

Por um lado, podemos culpar a organização. Tinha efeitos caros e surpreendentes para a época, como um palco giratório. Moraes Moreira quis se alongar, se achando dono da noite, em uma das apresentações no primeiro RiR, e o palco girou o calando no meio do show. Furioso, colocou um monte de jabunços para segurar o palco até mesmo com seu atraso (um imenso respeito pelos outros artistas e pela platéia). Em compensação, só quis reunir nomes famosos, sem nenhuma ordem. E famosos em proporções bem distintas - se hoje é uma moda completamente aceitável ser fã de Elba Ramalho e Ivete Sangalo, não era bem assim naqueles idos de 80, em que esses estilos ainda eram "coisa do Nordeste", que pareciam que nunca seriam aceitos pelas bandas (epa!) do sul.

iron maiden_rock in rio1.JPGPor outro lado, não adianta ter uma nostalgia com um "passado perfeito" e purificado, em que o bom gosto dominava, e cada um conhecia sua praia. Como se não bastasse algumas bizarrices, como Iron Maiden e Queen na mesma noite, não custa pegar algumas revistas de rock verdadeiro da época (que eram verdadeiros fanzines em preto & branco que apareciam no máximo 3 vezes por ano em bancas especializadas no centro da cidade). Nas seções de cartas, lemos: "Quero conhecer roqueiros! Gosto de Nirvana, Pink Floyd, Metallica, Ramones, Duram Duram (sic), Black Sabbath e Pet Shop Boys. Mandem na minha caixa postal!" É essa a "pureza" de estilos que buscam encontrar?

A verdade é que a "pureza" não existia muito bem naqueles idos de fitas cassetes, rádios duvidosas que demoravam horas para tocar a única música que queríamos ouvir e em que ninguém conhecia o rosto dos caras das bandas (e ninguém falava inglês e tampouco as letras). Pior: ninguém entendia muito bem de música. Eram tempos de inflação em 80.000% ao ano, de Sarney, de pós-ditadura, de ninguém ter dinheiro pra nada além do básico. Era uma arte da gambiarra enorme. Se hoje uma Gibson Les Paul e um aplificador Marshall JCM800 só não custam o preço de um carro popular usado porque carro paga IPI alto, tente imaginar quantas pessoas estudavam música de verdade nos anos 80. Ninguém entendia nada. Para aquela época, Ramones e Genesis eram apenas bandas diferentes do mesmo "rock".

É curioso que crescemos com todos esses gostos. Ainda gostamos hoje de Black Sabbath e Pet Shop Boys por serem músicas que lembram nossa infância. É o mito dos anos 80: um mito de que o passado era melhor. De que you have to be old to be wise, ao contrário do que afirmava a pérola de sabedoria do Judas Priest. Como se tudo na época fosse bom. Uma tarde passada no Youtube mostra que os anos 80 foram uma merda:acdc_canhoes.jpg um tempo em que o Brasil era uma selva que nunca seria algo além de um lugar em que índio andava de Brasília, em que apresentadoras pornográficas apresentavam produtos ruins e coloridos que custavam uma fortuna, mas que moldaram nosso caráter, um lugar em que gostar de rock sem acharem que você era fã de Roberto Carlos mostrava que você tinha futuro na vida (procure por seus amigos de escola que não ouviam Ugly Kid Joe em 92 e veja se algum deixou de ser um bosta).

Só que eram tempos apaixonados. Existia uma paixão por uma vida sofrida e morosa muito maior do que a de hoje. Agüentar 5 horas seguidas de Domingão do Faustão só para dar umas risadas brocoxoscas com as videocassetadas no finzinho do programa era um teste de bravura. Conseguir e vestir uma camiseta do Sepultura, então, era uma mostra de ser guerreiro. Até que o Manowar tinha alguma razão com aquela papagaiada de "Warriors of Metal" daquela década.

Hoje nêgo sabe que Radiohead não combina nem um pouco com Deep Purple. Até sua mãe deve saber disso. Tente explicar isso até pros "rockeiros" dos anos 80/90 e o resultado seria catastrófico.

queen_85_rockinrio.jpgEram tempos duros, em que se conhecia uma banda por, via de regra, uma música. O Queen era a banda mais importante do mundo por emplacar tanto Bohemian Rhapsody quanto We Will Rock You para quem curtia rock, e até umas baladinhas mais pop e açucaradas do que uma versão jr. do Prince para deixar as mulheres loucas (toda mulher aprendeu a ouvir rock com Queen, pode pesquisar).

Você pega um show do Megadeth até no Hollywood Rock, em 92, e os caras terminam o show tipicamente, com Peace Sells e Holy Wars. Pergunta: quem no Brasil grita "If there's a new way / I'll be the first in line" no refrão de Peace Sells, exatamente quando a banda inteira pára de tocar para ouvir aquele uivo massificado que faz com que milênios de evolução dirigida ainda deixem o ser humano a apenas uma sobremesa por dia de diferença de uma matilha de lobos famélicos e perigosos? Ninguém sabia a letra disso porque não tinha internet (e as únicas 7 pessoas na platéia que tinham o LP, que nem sempre vinha com encarte, dificilmente sabiam inglês), e não era essa a única música do Megadeth que tocava no rádio. O Megadeth ficou famoso no Brasil com Symphony of Destruction lançada no mesmo ano. E só. É isso aí. Todo mundo que estava na platéia ouviu o show inteiro com cara de "é, que legal, mas o que é isso que tá rolando ali?!" enquanto esperavam pelos 4 minutos em que reconheceriam algo do que estava acontecendo.

Judas Priest – Rock In Rio II halford.jpgNo fim, festivais como o Rock in Rio significavam muito para a época por uma confluência de dois fatores: raras pessoas pagariam pra ver o show "do Judas Priest, aqueles da Breaking the Law" em 91, mas ficou pagável se era pra ver tanta banda junto, o que era uma raridade pra época; já para os artistas e organizadores, era excelente ter uma platéia gigantesca, embora ninguém ali (mesmo em 2001) parecesse entender muito bem o que era a discografia das bandas destilada nos palcos. Aliás, os shows eram tão somente isso, mesmo: um palco grande, com uma platéia vendo uma formiguinha lá de longe. Nenhum grande efeito, nada. O AC/DC trouxe sinos de barco (eles pediram bronze, mas foram sacaneados na última hora) e canhões, e foram todos os "efeitos especiais" do Rock in Rio 1. Nenhum outro teve muito (no máximo o guitarrista do Scorpions girar sua guitarra, arrebentar a correia e ela acertar sua cara, fazendo-o tocar ainda uma música largado no chão, com a cara coberta de sangue). Pegue qualquer show de um Rammstein ou Kiss hoje (hoje não, o Kiss tem mais rugas por centímetro quadrado que o meu saco) e veja o que os caras fazem de efeitos grandiosos até nas turnês mais chumbrecas.

Pagar caro pra morrer de calor e reclamar que a Cláudia Leitte tá tocando em um evento chamado "Rock in Rio", esquecendo-se de que a Sandy causou o mesmo fuzuê há menos de 10 anos, e o Erasmo Carlos até hoje tem medo da palavra "Whitesnake"? Esses eventos cheios de gente só querem seu dinheiro, fellas. Eles sempre foram uma merda.


Post Scriptum: Não sei se meu leitor terá já percebido, caso não tenha dividido a atenção entre o texto e besuntar em vaselina uma mandioca longilínea, mas finalmente coloquei no ar o meu blog de música - este em que você se encontra atualmente. Sim, as estrelas se alinharam e o fim dos tempos começou. Faça um favor a si próprio e clique ali do lado em "Participar desse site" e comece a seguir o blog, pois a chuva de pedradas pra todo lado começou. De nada.

domingo, 25 de setembro de 2011

Metallica - a banda mais metrossexual da cidade

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Houve época em que o Metallica influenciava a molecada querendo ser thrasher. Desde o Load e Reload, a molecada influencia o Metallica.

Às vezes o modus operandi da banda ex-boa é dar uma roupagem mais soft que papel higiênico dupla-face a um som que era do capeta; às vezes é colocar umas letrinhas ou pseudo-festeiras como Ain't My Bitch (porra, os caras tinham letras baseadas em Hemingway e Lovecraft!), ou "mamãe, caguei" tipo Mama Said e Bleeding Me (precursoras do movimento emo - compare com Welcome Home e The Frayed Ends of Sanity). Isso sem falar nos cortes de cabelo copiados do Red Hot Chili Perppers (como diferenciar Jason Newsted de Dave Navarro quando ele apareceu de cabelo curto? Pelo esmalte nas unhas).

E vale o ditado "diga-me com quem andas que te direi quem és". Pros caras que faziam turnê com Destruction, Sodom, Exploited e Anthrax, agora tão andando com Limp Bizkit e Kid Rock - e, pior, sendo influenciados por essa patuléia!!

O Metallica foi ótimo até o monumento tombado pela Unesco chamado Master of Puppets, mereceu o Nobel do Som Porrada com o melhor álbum de todos os tempos, o ...And Justice For All, que tem um clima de luto por Cliff Burton em cada nota (parece que nenhum riff se repete perfeitamente no álbum inteiro). O Black Album tem mais produção que composição, apesar de músicas indiscutivlemente padrão do caralho de qualidade, como The Unforgiven, Sad But True e até Enter Sandman, que infelizmente já deu nos bagos (para os que insistem em acreditar na superioridade do Black Album, fora essas 3 músicas e a introdução de Whereaver i My Roam, que outra música vocês ouviram desse álbum nos últimos 20 anos?).

Já o Load e o Reload apareceram repentinamente. A banda fez uma longa turnê pelo Black Album que durou uns 3 anos (só superada em duração para a do God Hates Us All, do Slayer, que abria todo festival europeu com as mesmas músicas de divulgação, 1 Copa do Mundo depois de já terem feito o mesmo e outras bandas terem lançado 3, 4 álbuns). Viraram uma banda tão grande que foram fazer feitos inéditos para a época, como tocar na recém reinaugurada Rússia, que acabara de largar o nome "União Soviética". Se você quer uma prova histórica do que escrevi sobre os grandes festivais como Rock in Rio nas décadas de 80/90, metallica moscow.jpgbasta comparar o Live in Moscow'91 da turnê do Black Album com um algum show recente, de 2 anos. Compare James Hetfield se calando no refrão de TODA música famosa para ouvir a galera e tendo um silêncio como resposta, até pedindo para a galera gritar ("C'mon, men, it's 'WHIPLASH!!', godamn!") sem ser compreendido, com algum show de 2 anos atrás, na era do mp3 e do fim do Estado descendo a porrada na platéia (sério, dá pra ver isso o tempo todo), em que só o anúncio de uma música já faz com que a platéia grite loucamente.

Mas depois dessa turnê a banda sumiu. Todo mundo achou que os caras tinham morrido de overdose, se aposentado pra virarem jogadores de bocha e caminhoneiros transportadores de abacaxi, perguntavam-se se tinham pegado Alzheimer ou se tinham virado gays. Resposta correta: tinham virado gays.

De repente aparece um quarteto de senhores de meia idade, cabelos curtos (o que deixou Lars Ulrich mais bochechudo do que um buldogue passado no aspirador de pó), fotos escovadíssimas, roupas sóbrias e simplórias e expressão de que têm musiquinhas legais pra se ouvir numa festinha. Preferencialmente se for aquele momento mais democrático das festinhas escolares, em que param de tocar Bon Jovi pras meninas irem ao banheiro e os rapazes ouvirem alguma coisa que presta por 2 músicas. E era exatamente isso: as músicas do Metallica agora eram músicas para intervalos de festinha. Para não cogitar a homoerótica hipótese de que quatro galalaus marcaram horário no cabeleireiro juntinhos, fiquemos com a hipótese menos entubadora de mangalhos de que 2 membros da banda se casaram e suas sogras lhes exigiram cortar aquelas cabelos de rockeiros pauleira, e os outros dois passaram a usar calças sociais pretas com camisas com abotoaduras pra procurar emprego.

Pra quem não viveu aqueles idos de 96 (sério, como vocês conseguem achar que Metallica é uma das melhores bandas do mundo se os conheceram no Reload?!), vou explicar como foi: avisaram que tinham voltado pras rádios, deram uma entrevista ou outra, mostraram as fotos tosados numas revistas aí. E fizeram um suspense do caralho a respeito do álbum. E a música, caralho, como seria? Estaríamos diante de riffs cavalares a la Eye of the Beholder ou For Whom The Bell Tolls? Bom, confesso que foi menos pior do que parecia. A primeira música apresentada foi Until Sleeps. Lançamento mundial. Música esquisita, mas obscura. O Metallica tinha mudado muito do ...And Justice pro Black Album, em 3 anos. Poderia mudar muito mais em 5. Ainda tinha uma cara de Metallica.

O problema do Load não é "ser comercial". O problema é que tem letras mela-cueca, mesmo quando tenta ser "machão" - pruma banda que gravara To Live is to Die, One e ...And Justice For All há menos de uma década, começar um álbum com uma música chamada "Ain't my Bitch" era prova de o álbum ser sobra de estúdio. aliado a isso, o problema principal é que o álbum não tem riffs. E isso não é um problema se você é o Al di Meola ou o Steve Vai. Mas não quando você é a porra do Metallica!

O heavy/thrash/death metal na década de 2000 foi extremamente voltado para ritmos distorcidos, músicas extremamente sincopadas, cavalgadas tão fora do padrão "pergunta-resposta", com pausas tão difíceis de decorar, porque bandas como Meshuggah, Nevermore, Evergrey, Children of Bodom, Arch Enemy et tutti quanti beberam de uma fonte única: um álbum chamado ...And Justice For All. O que ele tem de tão anormal ao thrash metal é isso: ninguém consegue tocar aquela bateria identicamente ao Lars Ulrich porque ele muda pelo menos uma nota a cada vez que repete um riff. Mesmo a guitarra, parece sempre ter uma pausa extra, ou a menos, uma nova diferente, uma modificação de tonificação minimalista que ultrapassa as raias da genialidade. Algo que se perdeu completamente no álbum seguinte, mas se explica. Era outra pegada, menos crua, com produção de big band de hard rock.

Mas porra, eu ouço Creeping Death até numa gaita ou num tocador de midi como o Mario Paint... agora retire o maravilhoso amplificador Dual Racktifier da tal Until Sleeps e o que é que sobra? Uma bandinha de garagem com uma letra sem nexo!

Aí reparamos numa coisa estranha. Tanto Load quanto Reload (não é só no nome que são pedaços da mesma gororoba) têm guitarras também bastante difíceis de decorar. As notas não se repetem, mas também não formam nenhum riff decente (curiosamente, as ÚNICAS músicas boas dos 2 álbuns são exatamente aquelas com riffs fodamente do caralho). Tem mesmo uma pegada meio Hendrix e Lynyrd Skynyrd, como o Lars sempre quis. Mas eles não são o Hendrix ou o Lynyrd Skynyrd. E fica uma merda. E sem riffs. É difícil pra caralho tocar (e mesmo decorar) músicas como Fixxxer (pior nome de música de todos os tempos?) e Outlaw Torn. Mas... é uma merda.

Aí o Metallica entrou numa fase existencialista da qual não saiu até hoje. Todo álbum era "pra buscar as raízes". Veio o Garage Inc., com os covers dos Garage Days que só fãs conheciam, e o álbum não sofreu muitas críticas porque tem coisas ótimas (mesmo o que ficou famoso e tocou até furar, como sua versão para Whiskey in the Jar). Veio o S&M, com a Sinfônica tocando e o Metallica atrapalhando. Aí veio o St. Anger... e qualquer pessoa poderá entender porque odeio show de banda grande.

Porra, por que compram essa bosta?! Pra banda entrar na Billboard no dia de estréia em primeiro lugar e pensar: "olha lá, tá vendendo que nem pãozinho quente, melhor seguir essa linha, os fãs adoram e estamos entupindo o cu de dinheiro!"?! Parem de comprar álbuns que são uma bosta, caralho!! Ou querem ouvir Frantic com o Hetfield cantando "fran-tic-tic-tic-tic-tic-tic-dã!" imitando uma máquina de pinball dando tilt por toda a eternidade?!

(ah, sim: gastaram US$15 mil/dia com um terapeuta lunático para fazer esse álbum, para "controlar a raiva" da banda; incrível ver como são os egos de 3 idiotas - desconte-se o Jason - que só pensam em seus próprios umbigos e em dinheiro. E tem até citaçãozinha perdida do Nietzsche perdida por ali.)

O problema do Metallica está aí, agora. O cara que compra um álbum passa uma mensagem positiva pra banda. Daquele álbum. E o mesmo acontece em shows. Eu esperei por 10 anos pra ver um show do Metallica em que aplaudissem até a alma qualquer coisa do Ride the Lightning e a banda fosse recepcionada por dedos médios levantados em riste para coisas do Reload. Até agora não organizaram um boicote ao Metallica. E isso acabou com a banda.

Pior: o Metallica entrou numa onda mais mela-cueca que faz com que até quando toquem músicas antigas, não tenha um pingo de emoção. De que adianta cantar músicas como One (algo como a melhor música do século XX), tão pesada, densa, angustiante, raivosa e triste ao mesmo tempo, versando a respeito da morte em vida de voltar de uma guerra sem braços e pernas (história verídica), com "Yeah!" "Nah!" e "Uuhhh!" dignos de deixar Bruno & Marrone com inveja? O Metallica não consegue mais um pingo de clima em seus shows. Suas músicas são apenas notas. Não à toa que qualquer música climática, como Fade To Black, Welcome Home (Sanitarium) ou The Unforgiven ficam tão ruins ao vivo que eles nunca mais tocaram.

Assim, quando lançaram esse Death Magnetic, finalmente com o logo antigo, com uma "pegada thrash" e uma turnê "só com músicas antigas", deu pra ter alguma esperança. E o álbum começa muito bem com This Is Was Just Your Life. Obviamente, já começa com síncopes, com sons com cavalgadas furiosas e ritmos truncados. Mas é só isso. Não dá mais para agüentar aquela voz horrível do Hetfield fingindo que tem alguma emoção na vida além de vontade de encher o rabo.

E começam as baladas com versos que terminam alongando a sílaba final - tática completamente Renato Russo de tentar fazer rimas - como The Day That Never Comes. Todo o resto são só notas e notas. Sem feeling, sem nada além de ser obra de caras que já compuseram coisas foda no passado (se o Reload fosse obra da banda do seu vizinho, você o recomendaria continuar na música?). E por que caralhos fazer uma música até boa, mas chamá-la de The Unforgiven III?!?!

Enfim, o Metallica é uma banda com passado. Mas não importa o quanto "volte às raízes", continuará sendo apenas uma banda de quarentões que descobriram tardiamente a pouco recomendável arte do metrossexualismo, com dúvidas existencias nas letras (como "All Nightmare Long") que apenas dizem respeito ás lembranças dolorosas de troca-troca no camarim.


Post Scriptum: Sim, este é meu novo blog para falar de música. Seja tr00 e underground pra caralho e clique ali do lado em "Fazer parte desse site" para acompanhar mais som porrada de quem sabe o que escrever. De nada.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

O Rock in Rio sempre foi uma merda. Resignem-se.

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Não paro de ouvir piadas sobre o Pop in Rio. Aparentemente, a crítica é que o evento se degenou - uma idéia sensacional, com música de primeira, de repente virou palco para Cláudia Leitte, Rihanna, Elton John, Ivete Sangalo e Shakira. Algo como Rock in Rio 2011: 26 anos, drogados e prostituídos. Seria pior do que chamarem o Linkin Park pro Wacken. Ou o Evanescence pro Gods of Metal. Ou o Dio pro Ozzyfest. Ou botar a Cristina Scabbia pra cantar no Megadeth (peraí, isso eles fizeram mesmo!).

Isso se alinha a uma retórica nostálgica, sempre lembrando que nos anos 80 era melhor. Não tinha essa mistura. Era pureza pura da boa. Só os cobras iam. Coisa que prova que você manja pra caralho de música por lembrar que o Queen tocou na Cidade Maravilha.

Não é possível imaginar mentira mais deslavada. Tudo isso é um sentimento quase psicanalítico de retorno ao útero aliado à mentalidade de que "eu sou mais velho e maior, portanto eu determino a brincadeira, mesmo que o brinquedo não seja meu". É uma paunocuzice com quase 3 décadas, que ainda revela uma ignorância histórica e musical de fazer o Bon Scott gorfar de novo no túmulo.

Para cobrir essa miséria histórica, bastaria uma passagem rápida na Wikipedia. Nos "gloriosos" anos 80, teve Ney Matogrosso, Erasmo Carlos e Baby Consuelo abrindo show pra Iron Maiden, Queen e Whitesnake. Teve Lulu Santos antes de Nina Hagen (que posteriormente viraria "a baranga berlinense comida pelo Supla"). Teve Moraes Moreira e Alceu Valença abrindo pra James Taylor e George Benson. Teve Kid Abelha "& Os Abóboras Selvagens" (?!) abrindo para AC/DC, Queen e Scorpions! O mesmo show também teve um tal de Eduardo Dusek, cujo maior sucesso na época era o "Rock da Cachorra". Teve até Elba Ramalho abrindo pro Yes!!

É óbvio que perceberam as cagadas (ou algumas) e melhoraram a democratização da ruindade no Rock in Rio II e III. Mas se Erasmo Carlos saiu do palco sob uma chuva de latas, lobão_rock in rio.jpgquem não se esquece das latadas no Lobão quando entrou no palco no Rock in Rio 2 após o Sepultura, abrindo pra Megadeth e Judas Priest (o capacete até foi útil)? E então da antológica chuva de garrafas no Carlinhos Brown abrindo pro Guns 'n' Roses no Rock in Rio III, depois de tentar discursar pra platéia que eles precisavam aprender a valorizar a cultura nacional (como se Carlinhos Brown fosse um Machado de Assis ou Joaquim Nabuco). Mas isso já mostra que esse evento sempre foi uma desgraça.

Por um lado, podemos culpar a organização. Tinha efeitos caros e surpreendentes para a época, como um palco giratório. Moraes Moreira quis se alongar, se achando dono da noite, em uma das apresentações no primeiro RiR, e o palco girou o calando no meio do show. Furioso, colocou um monte de jabunços para segurar o palco até mesmo com seu atraso (um imenso respeito pelos outros artistas e pela platéia). Em compensação, só quis reunir nomes famosos, sem nenhuma ordem. E famosos em proporções bem distintas - se hoje é uma moda completamente aceitável ser fã de Elba Ramalho e Ivete Sangalo, não era bem assim naqueles idos de 80, em que esses estilos ainda eram "coisa do Nordeste", que pareciam que nunca seriam aceitos pelas bandas (epa!) do sul.

iron maiden_rock in rio1.JPGPor outro lado, não adianta ter uma nostalgia com um "passado perfeito" e purificado, em que o bom gosto dominava, e cada um conhecia sua praia. Como se não bastasse algumas bizarrices, como Iron Maiden e Queen na mesma noite, não custa pegar algumas revistas de rock verdadeiro da época (que eram verdadeiros fanzines em preto & branco que apareciam no máximo 3 vezes por ano em bancas especializadas no centro da cidade). Nas seções de cartas, lemos: "Quero conhecer roqueiros! Gosto de Nirvana, Pink Floyd, Metallica, Ramones, Duram Duram (sic), Black Sabbath e Pet Shop Boys. Mandem na minha caixa postal!" É essa a "pureza" de estilos que buscam encontrar?

A verdade é que a "pureza" não existia muito bem naqueles idos de fitas cassetes, rádios duvidosas que demoravam horas para tocar a única música que queríamos ouvir e em que ninguém conhecia o rosto dos caras das bandas (e ninguém falava inglês e tampouco as letras). Pior: ninguém entendia muito bem de música. Eram tempos de inflação em 80.000% ao ano, de Sarney, de pós-ditadura, de ninguém ter dinheiro pra nada além do básico. Era uma arte da gambiarra enorme. Se hoje uma Gibson Les Paul e um aplificador Marshall JCM800 só não custam o preço de um carro popular usado porque carro paga IPI alto, tente imaginar quantas pessoas estudavam música de verdade nos anos 80. Ninguém entendia nada. Para aquela época, Ramones e Genesis eram apenas bandas diferentes do mesmo "rock".

É curioso que crescemos com todos esses gostos. Ainda gostamos hoje de Black Sabbath e Pet Shop Boys por serem músicas que lembram nossa infância. É o mito dos anos 80: um mito de que o passado era melhor. De que you have to be old to be wise, ao contrário do que afirmava a pérola de sabedoria do Judas Priest. Como se tudo na época fosse bom. Uma tarde passada no Youtube mostra que os anos 80 foram uma merda:acdc_canhoes.jpg um tempo em que o Brasil era uma selva que nunca seria algo além de um lugar em que índio andava de Brasília, em que apresentadoras pornográficas apresentavam produtos ruins e coloridos que custavam uma fortuna, mas que moldaram nosso caráter, um lugar em que gostar de rock sem acharem que você era fã de Roberto Carlos mostrava que você tinha futuro na vida (procure por seus amigos de escola que não ouviam Ugly Kid Joe em 92 e veja se algum deixou de ser um bosta).

Só que eram tempos apaixonados. Existia uma paixão por uma vida sofrida e morosa muito maior do que a de hoje. Agüentar 5 horas seguidas de Domingão do Faustão só para dar umas risadas brocoxoscas com as videocassetadas no finzinho do programa era um teste de bravura. Conseguir e vestir uma camiseta do Sepultura, então, era uma mostra de ser guerreiro. Até que o Manowar tinha alguma razão com aquela papagaiada de "Warriors of Metal" daquela década.

Hoje nêgo sabe que Radiohead não combina nem um pouco com Deep Purple. Até sua mãe deve saber disso. Tente explicar isso até pros "rockeiros" dos anos 80/90 e o resultado seria catastrófico.

queen_85_rockinrio.jpgEram tempos duros, em que se conhecia uma banda por, via de regra, uma música. O Queen era a banda mais importante do mundo por emplacar tanto Bohemian Rhapsody quanto We Will Rock You para quem curtia rock, e até umas baladinhas mais pop e açucaradas do que uma versão jr. do Prince para deixar as mulheres loucas (toda mulher aprendeu a ouvir rock com Queen, pode pesquisar).

Você pega um show do Megadeth até no Hollywood Rock, em 92, e os caras terminam o show tipicamente, com Peace Sells e Holy Wars. Pergunta: quem no Brasil grita "If there's a new way / I'll be the first in line" no refrão de Peace Sells, exatamente quando a banda inteira pára de tocar para ouvir aquele uivo massificado que faz com que milênios de evolução dirigida ainda deixem o ser humano a apenas uma sobremesa por dia de diferença de uma matilha de lobos famélicos e perigosos? Ninguém sabia a letra disso porque não tinha internet (e as únicas 7 pessoas na platéia que tinham o LP, que nem sempre vinha com encarte, dificilmente sabiam inglês), e não era essa a única música do Megadeth que tocava no rádio. O Megadeth ficou famoso no Brasil com Symphony of Destruction lançada no mesmo ano. E só. É isso aí. Todo mundo que estava na platéia ouviu o show inteiro com cara de "é, que legal, mas o que é isso que tá rolando ali?!" enquanto esperavam pelos 4 minutos em que reconheceriam algo do que estava acontecendo.

Judas Priest – Rock In Rio II halford.jpgNo fim, festivais como o Rock in Rio significavam muito para a época por uma confluência de dois fatores: raras pessoas pagariam pra ver o show "do Judas Priest, aqueles da Breaking the Law" em 91, mas ficou pagável se era pra ver tanta banda junto, o que era uma raridade pra época; já para os artistas e organizadores, era excelente ter uma platéia gigantesca, embora ninguém ali (mesmo em 2001) parecesse entender muito bem o que era a discografia das bandas destilada nos palcos. Aliás, os shows eram tão somente isso, mesmo: um palco grande, com uma platéia vendo uma formiguinha lá de longe. Nenhum grande efeito, nada. O AC/DC trouxe sinos de barco (eles pediram bronze, mas foram sacaneados na última hora) e canhões, e foram todos os "efeitos especiais" do Rock in Rio 1. Nenhum outro teve muito (no máximo o guitarrista do Scorpions girar sua guitarra, arrebentar a correia e ela acertar sua cara, fazendo-o tocar ainda uma música largado no chão, com a cara coberta de sangue). Pegue qualquer show de um Rammstein ou Kiss hoje (hoje não, o Kiss tem mais rugas por centímetro quadrado que o meu saco) e veja o que os caras fazem de efeitos grandiosos até nas turnês mais chumbrecas.

Pagar caro pra morrer de calor e reclamar que a Cláudia Leitte tá tocando em um evento chamado "Rock in Rio", esquecendo-se de que a Sandy causou o mesmo fuzuê há menos de 10 anos, e o Erasmo Carlos até hoje tem medo da palavra "Whitesnake"? Esses eventos cheios de gente só querem seu dinheiro, fellas. Eles sempre foram uma merda.


Post Scriptum: Não sei se meu leitor terá já percebido, caso não tenha dividido a atenção entre o texto e besuntar em vaselina uma mandioca longilínea, mas finalmente coloquei no ar o meu blog de música - este em que você se encontra atualmente. Sim, as estrelas se alinharam e o fim dos tempos começou. Faça um favor a si próprio e clique ali do lado em "Participar desse site" e comece a seguir o blog, pois a chuva de pedradas pra todo lado começou. De nada.

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